O Latex

O látex, ou borracha natural (BN) é a seiva extraída da seringueira (Hevea brasiliensis), planta originária da Bacia Amazônica, na América do Sul, porém o seu maior cultivo localiza-se principalmente no Sudeste da Ásia (GILBERT et al., 1973 ;  GRAVE et al., 1993; HASMA et al., 1993; MORCELI et al., 2003).

A seringueira pertence à família das Euforbiáceas, que é representada por 290 gêneros e cerca de 7.500 espécies. São plantas arbóreas, arbustivas, subarbustos e ervas com folhas alternas simples ou compostas estipuladas. As espécies mais conhecidas e de grande interesse comercial são: a seringueira e a mamona (Ricinus communis L.). Entre suas caraterísticas botânicas observa-se a presença de substâncias latescentes, visíveis quando a planta é submetida às injúrias mecânicas (DALL’ANTONIA et al., 2006).

A seringueira apresenta uma grande variabilidade vegetativa e produtiva. Assim, para a produção de borracha utilizada na indústria pesada (pneumática) e leve (artefatos), entre outras, são empregados diferentes clones. Um clone constitui um grupo de plantas que é obtido por meio da propagação vegetativa de uma planta matriz, e todas as árvores do clone possuem a mesma constituição genética responsável pela uniformidade existente entre elas, e neste caso ocorre o melhoramento genético da planta, unindo qualidades específicas baseadas em seus potenciais de produção e resistência (COSTA, 2001).

A introdução de clones no seringal apresenta inúmeras vantagens, e a uniformidade das plantas é a principal delas, possibilitando ao heveicultor adotar um manejo fácil e econômico. A uniformidade da BN é outro fator importante, pois para propósitos industriais específicos esta qualidade é muita apreciada, tornando essa uniformidade essencial. Por meio de clones específicos é possível selecionar a BN para propósitos distintos, exigidos pela indústria (GONCALVEZ et al., 2006).

Estão presentes na natureza inúmeras espécies de plantas laticíferas, porém a seringueira é a única que produz BN de alta qualidade (ADIWILAGA et al., 1996).  A BN possuí propriedades únicas e superiores até mesmo ao seu análogo, o látex sintético. Apresenta uma excelente elasticidade e baixa histerese mecânica, por isto a BN é considerada um material ideal na produção de pneus, elementos de suspensão e para-choques (BIKALES et al., 1973) e também produtos leves de alta resistência como balões, luvas cirúrgicas e preservativos (DALL’ANTONIA et al., 2006). A BN também é considerada um material inovador, podendo ser utilizada em argamassas na construção civil, indústria aeronáutica e naval, tubos para usos em hospitais, compósitos condutores e materiais de alta precisão como válvulas e retentores (PIERRE et al., 2002).

A BN é composta por um sistema coloidal polifásico. A parte dispersa é constituída de micelas de borracha que constituem 30 a 45% de sua massa, proteínas, lutóides que constituem 10 a 20% e partículas Frey-Wyssling que estão presentes em pequena quantidade (apenas 1%) e são constituídas por carotenoides e lipídios, que conferem à BN sua coloração amarelada (WISNIEWSKI et al., 1983; HONORATO et al., 2005). O meio dispersivo é constituído pelo soro aquoso que é composto por inúmeras proteínas, aminoácidos e sais minerais (WITITSUWANNAKUL et al., 2008), como podemos verificar na Figura 1.

Figura 1: Esquema representativo das frações da BN após a centrifugação e separação de seus principais componentes (FRADE et al., 2001).

 O peso molecular da BN  depende da origem clonal, e varia de 600.000 a 950.000 g/mol, sua estrutura é composta de três unidades trans-isoprênicas (parte cristalina), cerca de 10.000 unidades cis-isoprênicas (parte amorfa), do tipo cabeça-calda (GALIANI et al., 2007), combinadas por ligações 1,4 e um grupo α terminal, como pode ser verificado na Figura 2.

A BN exibe um comportamento elástico mediante reticulação intermolecularmente. Suas partículas são cercadas por ânions e proteínas que estão carregadas negativamente. Quando exposta ao ar, ocorre a coagulação e as proteínas são rapidamente decompostas por bactérias e enzimas, enquanto a reticulação dentro das partículas de borracha conduz a uma degradação das cadeias de borracha (MARTINS, 2005).

A BN possui outros constituintes que foram relatados em alguns estudos fitoquímicos, como polissacarídeos, flavonoides, lipídeos, fosfolipídios e proteínas. Foi comprovada também a existência de alcanos, cetonas triterpênicas, triterpenóides, açúcares e ácidos graxos (UZABAKILIHO et al., 1987). A composição média da BN recém-coletada está apresentada na Tabela 1.

 Tabela 1: Composição média da BN recém-coletada.

 

Constituintes

(%) em massa na BN

Borracha

25-45

Proteínas

                      1-1,8

Carboidratos

1-2

Lipídeos neutros

0,4-1,1

Lipídeos polares

0,5-0,6

Inorgânicos

0,4-0,6

Aminoácidos, aminas, entre outros.

0,4-0,6

Água

49-71

Fonte: RIPPEL et al., 2003.

 

 

A BN recém-coletada apresenta pH entre 6 e 7, e densidade entre de 0,975 e 0,980 g/cm3. A BN possui viscosidade variável que depende do clone, período do dia de realização da coleta e estação do ano (RIPPEL et al., 2003).

A coleta da BN é realizada por meio de um processo denominado sangria, e para a sua estabilização é utilizado hidróxido de amônio. A sangria consiste na prática de uma incisão na casca do tronco, com um equipamento denominado jebong, para seccionar os vasos laticíferos e permitir o escoamento de um líquido branco-leitoso, às vezes amarelado, que genericamente se chama látex, ou BN (GONÇALVES et al., 2000). Após a sangria, logo que a BN começa a fluir ocorre a penetração de água nos tecidos laticíferos a partir dos tecidos adjacentes, verificando-se um progressivo efeito de diluição da BN. As pressões na região basal do tronco da seringueira geralmente excedem às da região apical, sendo que o gradiente é de cerca de 1 atm/10 m durante à noite, aumentando gradualmente, até seis vezes o valor observado durante o dia. Durante o dia ocorre a queda da pressão de turgidez da BN devido a passagem de água do floema para o xilema sob condições de alta taxa transpiratória. Neste caso, se ocorrer forte precipitação à tarde, as pressões hidrostáticas aumentam na superfície do tronco sem decréscimo no déficit de água foliar (COSTA et al., 2010).

O escoamento da BN é provocado pela pressão interna predominante dentro dos vasos laticíferos. Inicialmente o escoamento é rápido, tornando-se lento ao longo do processo, sendo que de modo geral, esse processo pode levar de 2 a 3 horas. (MORENO et al., 2007).

A seringueira reconstrói em pouco tempo a BN retirada após uma operação de sangria. Por este motivo, sua exploração pode ser realizada continuamente durante todo ano, em dias alternados. O escoamento está intimamente relacionado com o grau de hidratação dos tecidos na área de sangria. Desta forma, as condições ecológicas influenciam no processo, podendo desfavorecer um bom fluxo de BN. Por este motivo, o horário de realização de sangria deve ser condicionado ao período de baixa evapotranspiração, isto é, preferencialmente nas primeiras horas do dia (MORENO et al., 2003).

Existem vários métodos de sangria, porém o mais amplamente utilizado nos seringais do país é o de sangria em meio espiral em dias alternados, tecnicamente denominados S/2, d/2. Para a realização deste processo torna-se obrigatória a utilização de mão-de-obra especializada. O seringueiro é de extrema importância para a coleta da BN, já que se ele não for suficientemente treinado, habilidoso e dedicado, poderá acarretar inúmeros prejuízos ao heveicultor e até danificar totalmente o seringal (ORTOLANI et al., 1998).

O hidróxido de amônio é utilizado para conservação da BN, bem como para evitar que ocorra o processo natural de coagulação após a coleta, ou seja, atua como conservante (SUM et al., 1983). Existem várias hipóteses para explicar o fenômeno de coagulação da BN, e a mais aceita propõe que a atuação de microorganismos poderiam causar a decomposição dos componentes não borracha, interferindo diretamente no pH da BN favorecendo o processo de coagulação. A queda no pH da BN de 6 para 5 está envolvida no processo de coagulação espontânea (BLACKLEY et al., 1997). O Hidróxido de amônio (NH4OH) é um bactericida muito eficiente em concentrações acima de 0,35% em massa, que atua impedindo o crescimento de microorganismos, os quais podem estar envolvidos no processo de coagulação. O hidróxido de amônio também eleva o pH da BN, retardando este processo (BLACKLEY et al., 1997; RIPPEL et al., 2009), porém, sendo um agente químico, pode causar queimaduras nos olhos e pele de quem o manipula, e por ser altamente solúvel em água, permite a dissolução em mucosas ou membranas, formando hidróxido de amônio, podendo causar necrose tecidual. Além disso, pode interagir também com o sistema nervoso central, causando encefalopatia hepática, deficiências bioenergéticas, alterações no pH, entre outros efeitos (ALBRECH et al., 2006).


* Extraído de "Estudos Sistemáticos de Biocompatibilidade e Potencial Osteogênico de Membranas Bioativas em Coelhos Machos", Tese de Juliana Ferreira Floriano, 2013.

Comentários